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Na tarde fria de outono, a voz estridente da negra esguia é recebida com indiferença pelas pessoas que se dirigem à vizinha estação do metrô e pelos turistas aglomerados diante da imensa cratera que restou do que fora um dia as torres gêmeas de Nova York.
A mulher exaltada protesta com um discurso religioso, repleto de frases sem sentido, ela própria uma amostra do que a realidade pode produzir nas pessoas. Lembra os inocentes sacrificados na manhã de 11 de setembro de 2001, quando aviões seqüestrados por terroristas se transformaram em mísseis, espalhando destruição e dor no Ponto Zero da maior cidade americana. Grita e pede respeito aos mortos e à sua sepultura escancarada. Mas no local as obras para a construção da Freedom Tower (Torre da Liberdade), que reeditará em 2010 o espetáculo visual e simbólico das antigas torres do World Trade Center, seguem aceleradas e o cotidiano da metrópole, novamente colorido e vibrante, insiste em deixar no passado aquela terrível manhã de setembro.
Nova York diz a Nova York: o show tem de continuar. A vida não pára. Há luzes, cores e sons como antes. As noites continuam febris. O comércio acena com o paraíso do consumo. A cultura transpira por todos os poros da cidade que ama a liberdade e a diversidade... Mesmo assim, a Nova York que reencontrei agora, cinco anos após minha última visita – em 2001 ainda pude apreciar a imponência das torres gêmeas, nove dias antes do atentado –, já não é a mesma e certamente jamais será, pelo menos para os meus olhos.
Junto com os dois edifícios atacados, então um símbolo da pujança americana e da ousadia nova-iorquina, ruíram pedaços do espírito da cidade que talvez não saibamos precisar em um texto, embora perceptíveis a olhos e corações sensíveis. E retornar a Nova York como um simples mochileiro, despojado e com pouco dinheiro, certamente ampliou-me essa sensibilidade, por colocar-me mais perto da cidade real, aquela das pessoas que vivem o cotidiano, conhecem os códigos locais de sobrevivência e captam através da empatia a expressão das almas individuais e coletiva. Não, essa não é mais uma visão sombria de um turista frustrado em sua ânsia de sensações. Nova York está melhor! Ficou mais calorosa e humana, mais pacata e cordial, seja por que o impacto do terror ou a ressaca da beligerância americana, que sucedeu ao ataque terrorista, revolveu valores adormecidos nos porões de corações e mentes ou simplesmente por que, vista agora por um brasileiro comum e descomplicado, a cidade se revela além de seu concreto, aço e dólares.
Nova York foi o ponto culminante de um roteiro que começou, em 5 de outubro, no Canadá (etapa que será relatada na próxima edição do Planeta Jota) e que incluiu visitas a Boston e a Washington, além de paradas rápidas pelo interior dos Estados Unidos. Cidade cosmopolita, capital dos negócios e da cultura no ocidente, Nova York está longe de ser a cara da nação americana. Fora da metrópole, agitada e liberal, os Estados Unidos mostram uma face um tanto modorrenta e conservadora, sob a qual se esconde, a um só tempo, fé e generosidade, nacionalismo exacerbado, uma boa dose de preconceito e o apego a uma tradição de encrencas e guerras. Mas também esse pedaço maior da nação americana parece refeito do impacto de 2001 e seus cidadãos cansados das aventuras bélicas a que foram levados em nome da honra e da autodefesa. Nas casinhas de campo enfeitadas para a festa do Halloween e no contato apressado com pessoas comuns em pequenas cidades, como Buffalo e Burlington, percebi o anseio de paz e um certo resgate da ternura essencial do ser humano - o que seria confirmado depois pelo resultado das eleições para o congresso americano, em novembro.
Aposentado do jornalismo brasileiro, que ajudei a fazer durante algumas décadas, e agora exposto ao seu noticiário tenso, voltei aos Estados Unidos preparado para enfrentar o medo e as reações neuróticas que lhe são peculiares, sob a forma de desconfiança e agressividade. E acabei encontrando a descontração e a cordialidade escondidas, pelo menos nos caminhos que percorri ao lado de Fátima, minha mulher. Talvez por que, dessa vez, eu tenha entrado no país por terra, através da fronteira tranqüila com o Canadá, surpreendeu-me a serenidade que vi no posto do Serviço de Imigração do outro lado do rio Saint Lawrence, comparada à rotina dos oficiais da Imigração no aeroporto Kennedy, em Nova York, onde às vezes se acumulam vítimas de grosserias de funcionários estressados. Na calma da madrugada – sim, como um bom notívago entrei em território americano às 2h da madrugada, com o meu jeitão de árabe-marroquino-indiano -, apenas um dos passageiros do ônibus em que eu viajava teve que se explicar a um agente. Tratava-se de um estudante da Tunísia, a quem foi solicitado bem mais do que responder à tradicional pergunta “por que veio?”, colocar os dedos indicadores na maquininha leitora de digitais e pagar uma taxa de seis dólares.
Continua...













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