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Artigo em áudio
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Em Varanasi, a mais sagrada das sete cidades sagradas do hinduísmo, deparei com um retrato perfeito dessa acumulação dos séculos. Numa viela enlameada, uma vaca, ciosa de seu status divino, aguarda a passagem de devotos de Shiva, a caminho do Templo Dourado, esgueirando-se sob a placa de uma lan house bem equipada, onde jovens se conectam ao resto do mundo pela internet. Pés descalços e testas marcadas pelo vibhuti vermelho, a cinza sagrada com a qual os hindus assinalam o ajna – o olho astral, entre os supercílios -, muitos na multidão portam telefones celulares sofisticados, produzidos a alguns quilômetros dali e exportados para vários países.
Quando uma brecha se abre entre os fiéis, a vaca cruza a viela, entra por uma pequena porta e, finalmente, acomoda-se num curral doméstico de menos de 20 metros quadrados para espanto de visitantes, como eu. Que país conseguiria manter assim, tão próximos e interagindo, uma era de rituais totêmicos e os tempos cibernéticos? A Índia consegue e, às vezes, isso é difícil de entender se não olharmos para a mitologia sobre a qual ela existe e se move.
À margem de rios e na solidão das florestas, os indianos conceberam no passado um universo que - ao contrário daquele modelo estreito e linear, centrado na Terra, adotado por muitos séculos no ocidente - tinha dimensões incomensuráveis e ciclos temporais que se repetem e se entrelaçam. Nessa representação, é possível a convivência dos opostos e compreensível a existência de um panteão de divindades que beira os 36 000 deuses e semideuses, cada um expressando tão somente aspectos, diferentes e polarizados, de uma única substância.
Desde a concepção védica, baseada em arquétipos e cultos tribais, o universo indiano é complexo e repleto de atalhos que realçam a impossibilidade de um sentido único, evidenciam a ilusão das formas e nos convidam a fruir o prazer dos encontros inevitáveis. A Índia vive esse modelo. Para entendê-la, é preciso que esqueçamos, ainda que por um breve tempo, o pensamento lógico de nossas elaborações e comparações, permitindo-nos o deleite em suas cores e crenças sem a preocupação de explicar coisa alguma.
(*) Outras reportagens e crônicas de Jomar Morais estão publicadas no site Planeta Jota – www.planetajota.jor.br













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