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Artigo em áudio
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Em Bodhgaya, a cidade onde Sidarta Gautama tornou-se o Buda, ao ver budistas e hinduístas praticando rituais distintos sob o mesmo templo, perguntei a meu jovem guia, Habi, qual a sua religião. Habi respondeu, sorrindo: “Na Índia, todos somos hinduístas. Tudo é hinduísmo”. Não poderia ser mais preciso. O que chamamos hinduísmo – e essa é uma palavra criada pelos ingleses no século XIX – não constitui uma doutrina homogênea, mas uma amálgama de crenças ancestrais, seitas e filosofias que têm por base a idéia de um universo multifacetado, essencialmente inexplicável e só compreensível pela experiência.
Talvez esteja aí o espírito zen que tantos buscam e nem sempre encontram nas peregrinações junto ao Ganjes e nos retiros com gurus: uma abertura fundamental para a vida, a disposição de fluir com ela e, ao contrário do que imagina o senso comum, também para interagir e mudar com as circunstâncias.
Na mitologia hindu, registrada parcialmente no gigantesco poema épico Mahabharata e no Ramayana, nem os deuses estão presos às suas identidades e atribuições. Shiva já foi Rudra na pré-história védica. Gayatri, um raio do sol, metamorfoseou-se numa deusa de cinco cabeças. Indra perdeu parte de seu poder. Textos sagrados se sucederam e se completaram ao longo de milênios. Abaixo desse Olimpo, a Índia humana e concreta também se move, mais rapidamente do que podemos perceber à distância, na direção de um futuro só em parte decifrável.
As vitrines do Connaught Place, a área do comércio chique de Delhi, não escondem, com a sua profusão de modelitos ocidentais e roupas sumárias, que os indianos estão sendo assediados por novos desejos. A escassez de santuários hinduístas nas ruas de Bangalore, a capital da informática e da biotecnologia na Índia, talvez seja um sinal de que Krishna e Ganesha já disputam espaços com os deuses da tecnologia. A explosão em Mumbai - a locomotiva econômica e cultural do país -, de bares que vendem bebidas alcoólicas e de boates liberais onde até um tímido movimento gay mostra a cara apontam para o início de uma revolução de costumes numa Índia tradicionalmente conservadora e pacata.
(*) Outras reportagens e crônicas de Jomar Morais estão publicadas no site Planeta Jota – www.planetajota.jor.br













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