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A ilha da Madeira é um paraíso. No inverno, velhinhos europeus deslocam-se para a linda Funchal em busca de temperaturas amenas.
No verão, jovens aventureiros chegam para desbravar as montanhas e apreciar sua rica fauna. Na semana passada, estive nesta jóia portuguesa no Atlântico mas, além de apreciar os seus encantos naturais, detive-me a meditar sobre um brasileiro que ali morreu, solitário e deprimido, após ajudar a escrever uma das páginas relevantes de nossa história. Diante do penhasco onde brilha há 116 anos o Hotel Reid – hoje um spa luxuoso – lembrei-me de André Pinto Rebouças, o baiano tímido e reservado, que por mérito conquistou a amizade do imperador Pedro II, tornando-se importante articulador no processo de libertação dos escravos.
Ao falarmos da abolição, costumamos citar tribunos, como Joaquim Nabuco, mas esquecemos os que sustentaram a campanha nos bastidores, com recursos financeiros e um programa ideológico, como é o caso de André Rebouças. Para ele, não bastava a alforria dos negros. Era preciso uma reforma agrária que lhes assegurasse o acesso à terra e ao trabalho. A elite escravocrata certamente tentaria perpetuar a subjugação por meio da exclusão social.
Negro, celibatário e “excêntrico”, André sentia na pele o que é conviver numa sociedade preconceituosa e utilitarista. Jovem, tornara-se brilhante engenheiro militar, mas foi o único a não obter o custeio oficial de uma viagem de estudos à Europa, financiada, afinal, por seu pai, o rábula Antonio. Ao formular o plano que solucionou o abastecimento de água no Rio de Janeiro e construir portos no país, enfrentou o boicote da burocracia racista e corrupta, sem jamais deixar-se corromper. Muitos de seus projetos feneceram no nascedouro, sob sabotagem velada ou explícita.
André era ético, autêntico e transparente. E tinha na amizade um de seus valores mais caros. Foi assim que, ao contrário de seus companheiros, preferiu abjurar o pragmatismo político e ficar ao lado de Pedro II, quando este foi deposto em nome da República. Optou pelo exílio em Lisboa, de onde passou a incomodar os novos governantes republicanos com os seus artigos no The Times, de Londres. Depois, perambulou pela África e, por último, em Funchal, instalou-se no Hotel Reid, onde permaneceu até morrer, sozinho e amargurado.
Na noite de 8 de maio de 1898, André despencou do penhasco sobre o qual vivera seus últimos sete anos. Sua morte mereceu notas de não mais que oito linhas nos jornais locais, com a ressalva de que “o infeliz apresentava sinais de desequilíbrio intelectual”, fato confirmado por seu amigo Carlos Gomes. Dois dias depois, os mesmos jornais dedicariam páginas inteiras a Campos Sales, o novo presidente do Brasil, que aportara em Funchal a caminho da Europa... O mundo continuava em seu cotidiano non sense, mas, em todos os tempos, princípios éticos como os de André Rebouças, sempre ressurgem da escuridão













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