Os novos índios (I)
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Quando a porta do bimotor Navajo foi aberta, uma pequena multidão cercou o avião e, do meio do grupo, uma voz inquiriu o primeiro passageiro a descer:
– Trouxe mini-pizza? Trouxe chocolate? – perguntou o índio Cocoró, da tribo dos iaualapitis.É sempre assim toda vez que um avião trazendo gente da cidade pousa em alguma pista de terra batida do Parque Indígena do Xingu, uma área de 28 mil quilômetros quadrados, do tamanho da Bélgica, situada no norte do Mato Grosso. Dessa vez, no entanto, não havia pizza nem doces a distribuir.
– Trouxe óculos – respondeu o oftalmologista Rubens Belfort Júnior, diretor do Instituto da Visão da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que realiza ações preventivas e terapêuticas no parque.
Acostumado a freqüentar a área desde a década de 60, Rubens chegou acompanhado por um grupo de oftalmologistas, empresários e representantes de instituições brasileiras e americanas que apóiam as iniciativas do Instituto, e logo deu início ao trabalho. Sob o calor de quase 40 graus, os médicos avaliavam a acuidade visual dos nativos, servindo-se de instrumental simples como lupas e cartões de leitura, enquanto o empresário Álvaro Ferrioli, do Centro Ótico Miguel Giannini, de São Paulo, esvaziava uma mala repleta de óculos corretivos para a alegria de índios com dificuldade para enxergar pequenos objetos, trabalhar com artesanato e, sobretudo, acertar tucunarés e robalos com flechadas certeiras durante as pescarias, principal fonte de proteínas nas aldeias.
A equipe permaneceu na selva por dois dias e, mais do que complicações visuais, constatou sinais de uma agitada transição na cultura indígena, talvez a mais profunda de que se tem notícia desde que os índios brasileiros foram abordados pelos portugueses no século 16. Aliás, uma mudança que abala os próprios fundamentos conservacionistas do Parque do Xingu, idéia de antigos sertanistas liderados pelos irmãos Orlando, Cláudio e Leonardo Villas-Boas, concretizada em 1961 pelo presidente Jânio Quadros.
Ayumã, Canawayuri e Matariná: parabólica e rap
O Xingu já foi palco de combates sangrentos contra invasores que tentavam (e ainda tentam) ampliar sobre o quadrilátero de mata cerrada da reserva a devastação realizada por madeireiras, mineradoras e fazendas de soja e gado no seu entorno. Aqui também, vez ou outra, agentes da Fundação Nacional do Índio (Funai) enfrentam apuros quando índigenas decidem reagir com truculência ao que supõem ser um desrespeito aos seus direitos. Nos últimos tempos, porém, a maior preocupação de caciques e pajés não é mais a ambição do homem branco ou o descaso do governo, mas uma questão doméstica que está alterando radicalmente o panorama xinguano: a nova geração de índios, alfabetizada e razoavelmente informada, que sonha com uma vida diferente da de seus ancestrais.
Kuarup X rock
O caráter explosivo dessa questão foi testemunhado pela Super, no segundo dia da missão médica, por ocasião de um encontro de líderes de 14 etnias indígenas. A reunião, convocada por Douglas Rodrigues, médico sanitarista que coordena os serviços de saúde prestados pela Unifesp há quase 40 anos e mora na reserva, tinha por objetivo discutir assuntos como a melhoria dos serviços e a escassez de verbas, mas a agenda acabou sendo descartada no calor das emoções e das diferenças entre caciques, pajés e os jovens índios. No auge do bate-boca, o cacique Ayupu, dos camaiurás, acusou os garotos que hoje exercem funções nos serviços de saúde e educação do parque, se vestem com roupas de grife e curtem rock e reggae. “Eles dizem na nossa cara que não sabemos nada, não mandamos nada”, afirmou o cacique. Foi rebatido por Pablo Ayumã, camaiurá que atua como auxiliar de enfermagem e é um dos líderes da força jovem do Xingu, com uma crítica mordaz ao estilo das lideranças. “Nossos pais precisam aprender a nos respeitar e a usar melhor os recursos da comunidade”, disse Ayumã, causando tumulto na platéia. Muitos desses novos índios viraram funcionários do governo, formando uma casta de assalariados com ambições de consumo que agora ensaiam os primeiros passos na direção do poder tribal. E é justo aí, nesse ponto nevrálgico, que o conflito de gerações extrapola a intimidade das malocas.
Nem era preciso que adultos e jovens mergulhassem em discussão para que se pudesse perceber as divergências entre eles. Bastava olhar para aqueles homens, reunidos na beira do rio, sob um galpão sem paredes. Caciques e pajés compareceram seminus e descalços. Pelo menos um deles, o velho pajé Tacumã, marcaria posição apresentando-se em traje de gala indígena: nu, com o corpo tingido pelo vermelho do urucum e a cintura ornamentada com o kuarrap, um cinto de palhas coloridas. Contrastando com o naturalismo da cena, garotões como Pablo Ayumã, Marcelo Canawayuri e Maurício Matariná (eles fazem questão de seus prenomes brancos), exibiam-se em seus vistosos tênis, calças jeans e camisetas de marca. No brilho de seus olhos, vislumbrava-se um mundo ainda estranho e incompreensível para seus pais.
Segundo o cacique Aritana, dos iaualapitis, cuja saga na cidade grande inspirou a novela Aritana, que passou em 1978 na TV Tupi, todo esse descompasso é conseqüência da educação baseada em valores da civilização branca a que os meninos do Xingu foram submetidos. Tatap, o índio que traduz Tacumã, é ainda mais amargo: “Por causa disso, nossos jovens não querem mais pintar o corpo para festas como o Kuarup (a grande evocação dos antepassados). Dizem que preferem coisas limpas e muitos sonham em viver na cidade”. É como se, de repente, um movimento hippie ao avesso tivesse emergido no meio da floresta. Rituais como a reclusão pubertária das meninas e o pedido de permissão para casamento estão sendo atropelados por adolescentes índios com um ímpeto comparável aos dos jovens que nos anos 60 fizeram a revolução dos costumes na sociedade dos brancos. Em tribos com mais de 300 índios, segundo Tatap, a tradicional reunião de fim de tarde no centro da aldeia – um momento cerimonial que, ao longo de séculos, serviu para os mais velhos relatarem feitos heróicos e repassarem ensinamentos à juventude – agora não consegue atrair mais que 10 jovens.
Continua...













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