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O novo sabor da Big Apple (Parte II)
COLUNISTAS - Planeta J
Escrito por Jomar Morais   
Qui, 13 de Janeiro de 2011 16:24
   


Uma rajada de cultura novaiorquina parece espraiar-se, disfarçada, pelo interior e pela periferia dos Estados Unidos. Uma onda que potencializa as tendências de viradas em estados importantes, como o rico Massachusetts, onde estão a cidade de Boston e suas 36 universidades (seriam quase 70 na região metropolitana). Nesse estado, depositário de marcos da história americana e das tradições irlandesas, pela primeira vez um negro – o democrata Deval Patrick – foi eleito governador, em novembro último. Se ele tivesse perdido a eleição, o resultado também teria sido inédito, pois pela primeira vez uma mulher, a republicana Kerry Healey iria governar o estado. É bom que tudo isso aconteça em um dos melhores momentos dde Nova York, uma metrópole de 8 milhões de habitantes que nunca dorme, como lembra a canção imortalizada por Frank Sinatra e Liza Minelli. Mas certamente coisas assim não surgem do nada.
Nova York carrega esse simbolismo muito antes de existir como cidade. Há 11 mil anos, Manhattan, a ilha que é a cara da metrópole – por abrigar os cartões postais da cidade em seus múltiplos aspectos – já era habitada por indígenas que reconheciam a magia do lugar. Manhattan deriva da palavra nativa Manahactanienk, que significa “ponto da embriaguez”,  uma coisa que até hoje Manhattan faz muito bem com visitantes e com os que se instalam em suas ruas bem traçadas. Quem não se embriaga, afinal, com o cenário boêmio do Greenwich Village, o bairro mais popular de Nova York,  em cujos bares, restaurantes, teatros, livrarias e galerias passaram nomes célebres da contra-cultura dos anos 60 e 70? Sempre que fui à cidade me instalei por lá, embora já tenha dividido o tempo de permanência com o Harlem. O Village ainda transpira a poesia rebelde de Bob Dylan e Jimi Hendrix e seus prédios antigos combinam com o colorido dos jovens e alternativos de todas as idades, muitos deles alunos da Universidade de Nova York, junto à Washington Square. Nas ruas próximas à Christopher Street fervilha também a irreverência de gays novaiorquinos.
A classe média consumista certamente preferirá inebriar-se em lojas de departamentos como a Bloomingdale´s ou a Macys e suas roupas e jóias de grife. Ou serpenteará pelas lojinhas de eletrônicos, brinquedos e souvenirs nos arredores da reluzente Time Square, o coração de Manhattan. Ou ainda se perderá no comércio barato da Canal Street e arredores no bairro chinês, o Chinatown. Musicais nos teatros da Broadway, a enorme rua que corta a ilha no sentindo longitudinal, continuam lá, deslumbrando e divertindo gente de todas as classes. As centenas de museus e galerias de arte, em toda a cidade,  podem deixar zonzo quem se deleita com cultura. E é, sobretudo, o caldeirão cultural novaiorquino, produto da mistura de raças e nacionalidades na mais cosmopolita das cidades, que está por trás da magia que exala não apenas em Manhattan, como supõe o turista superficial, mas em todo o entorno onde Nova York finca sua marca.
Para um latino, como eu, Nova York acena com um algo mais que se acentua a cada ano: a sensação de que, estando em outro mundo, não se está tão longe de casa quanto se imagina. A cidade está muito mais latina do que em 1986, quando estive lá pela primeira vez. Há décadas que a presença massiva de caribenhos, sul-americanos e, claro, brasileiros, vem miscigenando a cultura americana num eixo que alcança, nas extremidades, as cidades de Miami e Boston. Isso explica a existência já há algum tempo na cidade – e agora em outras partes dos Estados Unidos - de canais de rádio e TV que transmitem em espanhol, milhares de anúncios, serviços de atendimento ao consumidor e telefones automáticos que se expressam no idioma imigrante.  Mas a impressão recente é de que falta pouco para, pelo menos Nova York tornar-se um enclave bilíngüe no centro do império americano.
Na situação atual, arriscaria dizer que se alguém, necessitado de ajuda, gritar em espanhol – ou mesmo em português – em qualquer área de Manhattan será de pronto atendido por alguém que entenderá o seu pedido. Afinal, não é mais o inglês a língua materna de tantos entregadores, motoristas de táxi, vendedores, técnicos diversos e donos de groceries, as pequenas mercearias presentes em quase todo quarteirão. Um rápido passeio por algumas ruas do Harlem, o bairro negro e pobre na área norte de Manhattan, fortaleceu em mim essa impressão. Áreas enormes, onde há pouco menos de 20 anos só se viam jovens rappers e aposentados afro-americanos, jogando conversa fora e palitando os dentes sob escadas de incêndio externas, estão hoje tomadas por mexicanos e caribenhos (muitos salvadorenhos). E seus restaurantes, suas lojas de cds, e suas banquinhas de camelô espalhando  o ritmo latino no ar, seus estudantes adolescentes de pele mestiça brincando e lançando provocações em... espanhol.
Vi algo parecido, há cinco anos, no distrito do Queens, fora de Manhattan, onde há tantos brasileiros. E não me surpreenderei se, dentro de alguns anos, uma espécie de Braziltown (à maneira do bairro Chinatown) se estabelecer nas proximidades da rodoviária de New Jersey, a vizinha de Nova York onde brasileiros e portugueses conquistam espaços e abrem seus negócios. A latinidade que emerge nos Estados Unidos, que mete medo em conservadores, nacionalistas e trabalhadores americanos puro-sangue, manifesta-se agora na força política que mais de 8 milhões de trabalhadores migrantes acabam de expressar nas ruas de Nova York, com os seus protestos contra o endurecimento das leis de imigração proposto pelo governo Bush. Assisti a um desses comícios, na Union Square, em Manhattan, em que desfilaram oradores de todos os matizes, estrangeiros combatendo a discriminação e a exploração de sua força de trabalho e clamando por direitos amplos – uma manifestação que realça o lado mais luminoso da América e de Nova York: a liberdade de expressão.
Por tudo isso, que  para mim é mais significativo do que os roteiros comerciais de agências turísticas, Nova York vale a viagem. Os Estados Unidos, nesse momento de autocrítica e revisão, merecem ser conhecidos, curtidos. No quadro ao lado, ofereço algumas anotações e dicas para quem deseja aventurar-se como mochileiro pelo país do Tio Sam. Elas não são propriamente um serviço turístico. Isto você pode obter em um bom guia turístico, entre eles o singelo USA & Canada on a shoestring, edição especial do respeitado Lonely Planet voltada aos mochileiros mais despojados e duros, como eu. Minhas notas apresentam algumas impressões de viagem e dicas baratas (e até gratuitas!) para quem curte o prazer de viajar por viajar e conhecer pessoas e culturas diferentes das suas, com liberdade e alguma criatividade, sem submeter-se a roteiros comerciais e dispendiosos nem sempre gratificantes.
 

Comentários

avatar Murilo Felinto
Nova York é uma grande festa.
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