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A cidade na escuridão
COLUNISTAS - Pé no Mundo
Escrito por Glácia Marillac   
Sáb, 21 de Novembro de 2009 18:37
Artigo em áudio

É como se fechássemos os olhos e só conseguíssemos ver aqueles pequenos pontos de luz no breu da nossa escuridão. Uma lâmpada acesa aqui outra ali, pessoas excitadas caminhando rápido pela rua, estudantes animados com a interrupção da aula, faróis malucos e motoristas apreensivos. Cada um se revelando por inteiro, como se o escuro pudesse disfarçar o efeito de nossos atos insanos.

Um certo receio tomou conta de mim. Saímos para jantar mas ficamos perambulando como se procurássemos uma luz no fim do túnel.

Subimos a rua Augusta passando por buracos na calçada e cabarés. No apagar das luzes as prostitutas pareciam mais felizes. Enquanto eu acelerava o passo elas se divertiam tranqüilas como se zombassem de nós, pobres mortais.

Tentei relaxar um pouco e segui protegida pela presença dos amigos. Era só um black out na quarta maior cidade do mundo, um momento histórico para se vivenciar.

Decidimos ir ao bairro da Liberdade para ver se por lá as coisas estavam um pouco mais claras e, nada! Decidimos então voltar para o hotel, tudo escuro. Com a barriga vazia e enchendo o peito de coragem, voltamos às ruas atrás de algo para mastigar.

Nada estava mais aberto. Com as cervejas descongelando e correndo risco de perder o apurado do dia, garçons davam adeus para os clientes já entregando a Deus a volta para casa. Meus amigos seguiram na escuridão, eu desisti e subi dezenas de degraus até meu quarto apagado.

Sem televisão, água quente e nem direito à luz de cabeceira para investir numa boa leitura, enfim me rendi ao black-out. Fiz uma oração, fechei os olhos e senti uma intensa felicidade: as luzes da minha escuridão continuavam piscando para mim.

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