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Nunca havia sentido a intensidade de um aceno.
Sempre acenei para pontuar momentos: um olá, um tchau, na maioria das vezes ao entrar e sair de algum lugar.
Mas nunca, nunca mesmo havia sentido o quanto um aceno pode nos aproximar das pessoas por mais distantes que elas pareçam estar.
Fomos para uma das maiores festas do mundo: o boi de Parintins. Como meio de transporte, optamos pelo barco. Na ida, seguimos a favor da correnteza e, bem de longe, avistávamos casinhas abandonadas. A cheia do rio Amazonas foi a maior do último século e afastou para longe os ribeirinhos mas, na volta, ... eles acenaram!
Já no primeiro aceno fui surpreendida por um monte de pensamentos: Como esse povo vive? O pouco que tinham, o rio levou... como levam a vida? Como comem, convivem, quem são esses brasileiros?
A cada novo aceno uma leva de emoções tomou conta de mim. Por que eles acenavam? Queriam pedir algo? Queriam dizer que estavam felizes com a nossa presença? Ou, simplesmente tentam diminuir as distâncias que os separam da vida urbana tida para nós como a única forma de conseguirmos suprir todas as nossas necessidades?
Mas que necessidades, são essas? Do que realmente precisamos para sobreviver?
O povo ribeirinho com seus traços indígenas asiáticos parecem tranqüilos, felizes apesar de toda austeridade.
E nós, urbanóides, somos felizes? Trancados em muros altos nos sentimos superiores. Do alto dos confortáveis barcos ficamos admirados ao ver os ribeirinhos que se aproximam nas suas frágeis canoas feitas de um pau só. Com muitas doses de coragem enfrentam o rio barrento e o banzeiro que vamos deixando como rastro.
Acho que funcionamos de fato, como banzeiros. Aquelas ondas impiedosas que se formam nos rios, na passagem das embarcações e que vão balançando e derrubando os mais frágeis. Mas quem saber remar conforme a correnteza, sabe levantar com a agilidade reservada aos mais sábios.
E os sábios, são aqueles que sabem que a vida é apenas uma passagem . De carne e osso, somos todos mortais e, independente de onde e para quem estejamos acenando, navegar será sempre preciso...













Comentários
Parabéns pela viagem e pela rica descrição!
Sua matéria me fez refletir um pouco e lembrar do Mário Quintana quando afirmou que ... "a vida é uma estranha hospedaria, de onde partimos quase sempre as tontas, porque nunca as nossas malas estão prontas e a nossa conta nunca está em dia".
Esses nossos irmãos ribeirinhos, apesar de aparentemente frágeis, detém conhecimentos / sabedoria que estão muito além de nossa imaginação...