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Saber viajar é um dom de poucos
COLUNISTAS - Pé no Mundo
Escrito por Glácia Marillac   
Qui, 10 de Março de 2011 17:57
   

Hoje resolvi escrever um texto que desde o ano passado está na minha cabeça. A inspiração veio de um simpático casal baiano que perambulava tranqüilo pela gigante 9 de julho, em Buenos Aires. Eles estavam tentando se auto-fotografar quando o meu solidário marido se dispôs a fazer a fotografia em frente a uma das dezenas casas de tango que se espalham pela cidade. Foi só o que precisava para nos tornamos amigos. Amigos de verdade, daqueles que a gente abre os portais da nossa casa com todo carinho e vontade de oferecer o melhor que temos.
Enfim, o fato é que cheguei à conclusão que saber viajar é mesmo um dom e dos mais raros. Ser viajante é muito diferente de ser turista. Ser turista é moleza. Você vai à uma agência escolhe aquele pacote dos sonhos e prepara as malas, como num conto de fadas. Tudo conforme os panfletos e blá blá blá dos agentes é lindo e perfeito. Nada pode dar errado... As pessoas compram uma falsa realidade que não existe nem no mundo encantado da Disney e às vezes voltam cheias de fotos e frustrações.
Quando a gente põe o pé fora de casa, tem de estar disposto a viver todas as nuances do caminho. Não dá para querer apenas pistas ladrilhadas com pedrinhas de brilhante. O legal é saber cair nos buracos, sacodir a poeira e levantar achando graça e cheio de histórias para contar. O verdadeiro viajante faz isso com maestria. Nada estraga a alegria do bater asas de quem sabe aproveitar as dores e as delícias do que este mundão tem para oferecer.
E foi isso que nossos amigos fizeram. Depois do nosso encontro casual saímos outras vezes juntos e marcamos de irmos para uma milonga, um tipo de tango popular meio gafieira e cheio de charme que escapa da atenção da maioria dos turistas. Na data marcada, depois do lançamento do livro do escritor Guto de Castro, saímos com destino à noite dançante. O problema é que a milonga parece ser algo bem dos argentinos mais tradicionais e nem todo mundo sabe aonde fica.
Depois de muito perguntar e errar por várias vezes conseguimos uma pessoa que realmente sabia o endereço. O detalhe é que teríamos de subir uma ladeira gigante e não passava nenhum táxi para nos socorrer. Para piorar, o Fernando nosso amigo, estava com uma dor intensa no tornozelo, mas mesmo mancando ele seguiu determinado usando o poder da mente para aliviar o gemido de cada nova passada. Isso me chamou tanto atenção que me fez refletir o quanto é sábio quem sabe viajar. Se o Fernando fosse o típico turista, iria desistir na primeira esquina e xingaria até a última geração a pessoa que teve a “belíssima” idéia de ir para essa tal de milonga.
Viajar é como viver. Aproveita mais quem sabe ser leve quando tudo parece pesar toneladas. Viajar é saber que a vida é uma breve passagem e quem vai além mesmo quando tudo parece muito distante, certamente acaba sendo recompensado e dançando um tango tipicamente argentino, tomando uma excelente cerveja, sorrindo muito, acreditando e fazendo fé que cada dia vai ser melhor do que o outro em qualquer lugar do mundo.
 

Comentários

avatar Giovani Oliveira
Muito bom. Também concordo com você Glácia. Parabéns pelo texto e as viagens também.
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avatar LUCIA
MUITO BOM O TEXTO TB CONCORDO COM VC NADA COMO VIAJAR SEM RUMO , SEM PROGRAMÇÃO O IMPORTANTE É UMA BOA COMPANHA E PÉ DA ESTRADA RSRSRS .
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avatar Elisabeth Dunkel
Oi, o melhor da vida, na minha concepção, é não ter muito roteiro mesmo. Não falo de anarquismo, porém, dá para viver um caminho sinuoso e rico de surpresas. Gostoso o teu texto, e as experiências querida Glácia!
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