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Futebol por quem não entende
COLUNISTAS - Ser Cidadão
Escrito por Eugenio Parcelle   
Seg, 07 de Junho de 2010 15:58


O mundo gira como uma bola. Na minha adolescência, além de professor, todos queriam ser médico, engenheiro ou advogado. Terminei enveredando pelo jornalismo. Hoje, tomando como referência as periferias dos grandes centros urbanos, os meninos e meninas desse imenso país desejam ser jogadores de futebol para atuarem nos grandes times até chegarem à seleção brasileira.
Há alguns anos também sonhavam com a carreira de cantor de pagode ou de hip hop, manifestações que perderam um pouco o glamour e ficaram restritas as comunidades mais empobrecidas. Em alguns lugares, o desejo é ser traficante, jovem de armas em punho e cigarro na boca, olhar de malvado, dinheiro no bolso e assediado por garotas, dono de um falso “poder” e de uma vida intensa e curta.
Mas, voltemos ao futebol, tema deste artigo. Confesso que nunca fui bom de bola. Quando criança era gordinho, estava mais para bola do que para jogador. Com isso, dedicava-me mais as revistas em quadrinhos e aos livros. Os exercícios físicos pesavam demais. Mesmo assim, admirava as grandes jogadas, o futebol arte que vi, aos poucos, ser transformado num futebol industrializado, profissional, com a promessa de virar, em pouco tempo, meninos da favela em garotos ricos, sem necessidade nenhuma de estudos.
Se fosse feita uma pesquisa sobre a origem dos jogadores, com certeza teremos um percentual imenso de pobres e negros (com algumas exceções, evidentemente). A profissão de jogador de futebol transformou-se em oportunidade para milhões e milhões de meninos e , mais recentemente, também de meninas, que sonham em quebrar o ciclo da miséria e ser alguém na vida, diferente dos seus pais. Isso, sem ler um livro sequer, acreditando pura e simplesmente no talento.
Para um povo passivo, cordial, apaixonado e plural, a alegria de um gol extravasa todas as angustias. Ora, para quê panelaço contra o abuso dos impostos embutidos nos preços das cervejas consumidas no decorrer de uma partida de futebol? Vamos torcer, enfeitar nossas ruas de verde e amarelo, expressar nosso amor pelo Brasil, afinal tudo é lindo e perfeito, mesmo que ganhe salário mínimo e os jogadores milhões por mês. Embalado pelos meios de comunicação de massa, então, todos ficam felizes.
A conta disso tudo? Não é hora de pensar nisso, fica para depois...Como já deu para perceber, sou uma voz discordante. Nunca consegui decorar nomes dos jogadores e sempre estranhei o fato de torcer por um time com um tal jogador e de repente ele muda de time – e aí, continuo torcendo para o time anterior ou acompanho o jogador na sua nova experiência? Vou ser fiel ou infiel a quê ou quem? Nos programas esportivos, certa vez vi cenas de torcedores com imagens de santos pedindo pela vitória. Ambos os times erguiam as imagens, rezando desesperados. Meu Deus, a disputa chegou ao céu. Já entrevistei jovens que mataram outros jovens por defenderem torcidas organizadas rivais (e não causas...), um absurdo!
Enfim, como disse no início, não entendo de futebol. Mas, para mim um dos critérios para compor à seleção brasileira, seria ser jogador de time brasileiro. Creio que mais de 80% dos selecionados para a Copa atuam em times estrangeiros. Este é um dos critérios? É este o sonho que embala a noite de milhões de crianças: ser jogador de futebol no exterior, ganhar muito dinheiro, ter muitas mulheres... Sair da pobreza e mostrar aos outros que conseguiu vencer... Vencer é isso? Ser feliz é assim?
Em 2014 a Copa será no Brasil, um dos lugares escolhidos é Natal, vão destruir o Machadão, o Machadinho e o Centro Administrativo, vão construir no lugar um complexo com ginásio, shopping, estacionamento, tudo privatizado. É muito dinheiro em jogo. Começaram derrubando uma creche. Isso tudo para sediar alguns jogos (não sei quantos). Será que o custo vai valer a pena? O velho Machadão, com tantas histórias, uma identidade destruída. E o Papódromo, erguido para receber o papa João Paulo II, posteriormente transformado em elefante branco, vai virar pó, história lembrada em fotografias. No final de contas, quem manda no desejo do povo é a Fifa, obedece quem tem juízo, o custo é alto, mas os Governos tem dinheiro de sobra (só não tem para a educação e saúde).
Sei que corro o risco de ser o chato da vez. No entanto, minha intenção é agregar ao fator emoção um pouco de razão. Sei que a vitória agrega valor, mexe na estima do povo, mas deixo estas pequenas reflexões para quem entende de futebol. De minha parte, vou ali no mercadinho da esquina comprar umas cervejas e botar para gelar. Também tenho que comprar uns petiscos e esperar, a Copa está para começar e também quero curtir – com os pés no chão!

Comentários

avatar maria elaine
Puxa, que texto ótimo!
Sabe de uma coisa, osmais conscientes deveriam deixar de produzir tantos cabeças de pau...
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avatar Mário
Valeu, Eugênio!!
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avatar Pablo
caracs tava fucanando na internet e achei esse seu texto, belo resumo da vida como infelizmente eh, acredito que a derrebuda desses patrimonios que v c sitou os quais nao conheco, nao eh emotivada pela tal "paixao" do futebol e sim pelo dinheiro gerado por ela, na realidade creio que essa paixao que alimenta os garotos na infacia como vc sitou se transforu e paixao pelo dinheiro o esporte infelizmente ficou de lado saiu de cena e o dinehro cobriu, infelizmente, como diz o ditado onde o dinheiro fala o povo cala ou chuta bola.
parabens pelo texto continue assim..
abracos
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