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Suponhamos uma série de entrevistas em pleno Centro da cidade, abordando aleatoriamente as pessoas que circulam naquele espaço sobre a diferença existente entre o que consideram direitos humanos e cidadania. A priori, normalmente o sujeito apresenta dificuldades para discernir entre um e outro conceito, o que é justificado inclusive pela similaridade de acepções. No entanto, torna-se necessário diferenciar um do outro, sobretudo pelas repercussões que acarretam e que deverão suscitar muitas das reflexões e provocações que iremos disponibilizar neste espaço.
Não gosto da sujeira feita por pichadores em fachadas e paredes (o que difere, e muito, da arte do grafite), mas confesso que algumas frases me chamam a atenção. Uma delas, exposta no muro de uma residência no conjunto Pirangi, até hoje me induz a reflexão. Demorei alguns segundos para decifrar aqueles hieróglifos modernos, mas a dimensão dos significados que pode representar me fez fotografá-la e repeti-la neste artigo, como apêndice para um melhor entendimento do que tratamos. Está escrito: “O respeito que impomos define o que somos”.
A frase une elementos referentes aos direitos humanos, como é o caso da questão do respeito, da dignidade do ser, da formação do sujeito, do que somos, que é o que nos tornamos e que remete a mais pura cidadania. Direitos humanos remetem ao fato de que, pelo simples fato de nascer e estarmos vivo, temos direitos a ter direitos. Cidadania, por sua vez, é uma construção. À medida que crescemos e tomamos consciência de como as ações são executadas, e nos revoltamos, e começamos a tomar atitudes para transformar realidades, passamos a exercer a nossa cidadania, tentando contribuir na formação de um mundo melhor. A dignidade do outro também é a nossa dignidade.
Assim, temos direito a vida, a convivência familiar e comunitária, ao afeto e ao lazer, ao trabalho, a educação, saúde e segurança de qualidades, entre outros. Para isso escolhemos através do voto nossos representantes, as pessoas que vão executar estas ações, com recursos oriundos dos impostos que pagamos. Alguns autores consideram que, se não temos acesso a estes serviços com dignidade, ainda não vivenciamos um estado de cidadania. O momento que experienciamos é de busca, sendo necessária a prática de atitudes que resultem na formação de uma cultura baseada nos valores humanos para os seres humanos.
E como isso acontece? Apesar da aparente simplicidade, trata-se de uma construção complexa, pois envolve interesses divergentes e desejos diversos. É preciso atender o “um” no “todo”, ou seja, o individuo na diversidade. Imagine numa mesma mesa, discutindo estratégias para melhorar o ensino, um pastor protestante radical ao lado de um gay, um pedinte de frente a uma empresária. Se não deixarmos os estereótipos de lado e visualizarmos o ser humano na sua riqueza e também fragilidade, inclusive cultural, neste grupo não existirá nenhum dialogo, sim conflitos. É preciso ressaltar: Cidadania é ser rei e ser plebeu.
Este debate, com problematizações e busca de soluções, interessa a todos os “cidadãos”. Deve começar em casa, na família, seguindo pelas ruas e adentrando as escolas, os ambientes de trabalho. O sistema judiciário, as representações governamentais e não governamentais, os meios de comunicação de massa, as instituições de ensino e formação, as igrejas, entre outros, são ambientes propícios para um debate profícuo, pois lidam com situações que ferem os direitos humanos e interferem na prática da cidadania de forma permanente. É preciso sensibilizar e mobilizar as pessoas para a participação, afinal “o respeito que impomos reflete o que somos”.













Comentários
Acho que é além disso:“ o respeito que impomos desenha, necessariamente, a sociedade que almejamos. Remeter-se a idéia de cidadania é logo pensar em movimento, em algo não estático, que sugere dinamismo. Ser cidadão é sobretudo atuar e para isso a consciência de um respeito próprio que alarga o conceito de respeito ao próximo, perfazendo uma teoria de construção. É, em síntese, o que os grandes filósofos definem como “egoaltruimo”. O chileno Humberto Maturana destaca que: “criamos nossas circunstâncias e por elas somos responsáveis”. E ainda: “não é nem o destino, nem a sorte, nem sequer as circunstâncias que definem nosso destino, mas sim nossas próprias decisões”. Meu caro Eugenio, obrigado pela atitude de “despertar”. Que aportemos em um cais de mudança e ao respeito que impomos façamos uma sociedade melhor!