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Como escrevo um blog que tem a palavra “sustentável” no título (muito embora acompanhada da ressalva de que “é pouco”), volta e meia alguém me chama de “ambientalista”. Isso sempre me incomodou, mas eu ainda não tinha parado para pensar por quê. Pois andei pensando nisso. E cheguei a uma conclusão.
Quer saber?Ambientalista é o cacete.Quando me chamam de “ambientalista”, geralmente é com alguma condescendência. É como se “ambientalista” fosse o contrário de “desenvolvimentista”: uns se preocupam com a natureza, outros querem dar emprego para o povo. O cacete. Não existe essa divisão.
A psicanalista Maria Rita Kehl, em um artigo recente na sua coluna no jornal O Estado de S.Paulo, deu sua opinião sobre qual é a verdadeira divisão nessa história. “O objeto da disputa é o tempo”, escreveu ela. De um lado, há os que querem “agarrar tudo agora”. Do outro, estão os que “se preocupam com as gerações que vão continuar vivendo no Brasil quando todo o interior do País for igual às regiões mais secas do Nordeste atual – algumas das quais já foram ricas, verdes e férteis, antes de ser desmatadas pela agricultura predatória.”
Semana passada, no sertão nordestino, um pesquisador da Embrapa, que além de tudo faz uma geleia de umbu incrível, me levou para conhecer uma propriedade rural onde ele construiu uma cisterna para captar a água da chuva. Coisa de pouco mais que R$ 1.000. A água captada pela chuva é conduzida por canos com gotejadores – tudo baratíssimo. Na outra ponta dos gotejos, àrvores frutíferas. Um pomar lindo, lindo, lindo. Conversamos com o proprietário, um homem orgulhoso, de peito estufado, que comandava uma família de oito. Estava de visita seu filho, um menino esperto que estuda enfermagem em Petrolina. O pomar, construído sob orientação do pesquisador, começou faz só dois anos, mas a família já não dá conta de comer toda a comida que ele produz. Mamão, acerola, coco, coentro, gergelim, graviola, caju, maxixe, batata-doce, mandioca, tangerina, limão, tomate. Tudo só com água da chuva. Estou falando do sertão do Nordeste.
Esta foto na verdade foi tirada no pomar-laboratório da Embrapa. (O pomar do agricultor, com todo respeito à Embrapa, é muito mais bonito.) Foto: Cia de Foto ©. Perguntei a ele se ele vendia a produção. Nada. Ganharia muito pouco dinheiro concorrendo com grandes corporações cujas duas únicas preocupações são custo e receita. O que a família dele não consegue comer ele dá para algum vizinho. Não vi ninguém magrela na região.
Esse pomar lindo não contribui em um centavo furado para o PIB brasileiro. Mas, se você me dissesse que isso não é desenvolvimento, eu responderia “você está completamente louco e deveria procurar um especialista”.
Por outro lado, em 1991, quando o navio petroleiro Exxon Valdez derramou 100 milhões de litros de petróleo na costa do Alasca, o PIB da região aumentou. É que o trabalho de limpar a desgraça movimentou a economia. O efeito colateral foi que, oito anos depois, 21 das 23 espécies animais não tinham se recuperado. Centenas de pessoas que viviam da pesca perderam seus empregos. E é de se esperar que muitos deles tenham feito o que quem perde o emprego é tentado a fazer: beber demais, tornar-se violento, triste, amargo. Segundo o livro “Cradle to Cradle”, outros sinais de “prosperidade” com efeito positivo no PIB são “acidentes de carro, internações hospitalares, doença (como o câncer) e vazamentos tóxicos”.
Não estou insinuando que todo PIB seja ruim ou que tudo que é bom não dá PIB. Apenas que o pensamento dominante, de enxergar o PIB como onisciente, onipotente e onipresente, acima de tudo e de todos, é uma idiotice.
Lógico que tem muita gente interessada em defender que o futuro tenha mais vazamentos de óleo e menos agricultores auto-suficientes. Muitas empresas vivem de gente dependente. Para muitos políticos, então, é uma maravilha. Gente que tem pomar e cisterna não aceita vender voto em troca de uma visita de um caminhão-pipa. Portanto, ambientalista é o cacete. Só quero que essa galera tire a mão da herança dos meus hipotéticos filhos, a Terra.













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