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Viver mata
COLUNISTAS - Sustentável é pouco
Escrito por Denis Russo   
Seg, 22 de Março de 2010 17:58


Os muros do Brasil ficam cada vez mais altos - e cada vez mais adornados por acessórios tétricos como fios de alta tensão e lanças pontudas. Em São Paulo, apartamentos ficaram mais caros que casas. Há cada vez mais guaritas nas esquinas, cada vez mais grades nas janelas, cada vez mais holofotes nas calçadas, cada vez mais câmeras, cada vez mais voltas na fechadura e, o que mais me assusta, cada vez menos crianças brincando na rua. Os carros parecem cada dia mais com fortificações - são como jipes de guerra, isolados do mundo por detestáveis vidros fumê, que impossibilitam o contato visual. O Brasil está com medo.
Por que será?
Afinal, em termos concretos, o país não está ficando mais perigoso. Os índices de crimes violentos das nossas grandes cidades, embora continuem altos o suficiente para serem comparados sem muita desvantagem com zonas de guerra, estão caindo rapidamente. Os últimos 15 anos, que foram de estabilidade econômica e de redução da nossa astronômica desigualdade, foram também de diminuição consistente da criminalidade em boa parte do país. Mas a sensação de insegurança andou na contramão - ela aumentou. Aumentou muito.
Como explicar isso?
Talvez uma parte da história seja o grande aumento da classe média. Classe média é gente que tem algo a perder - portanto tem medo. Talvez outra parte da história seja a fixação mórbida que a sociedade da informação tem com violência. O tempo todo ouvimos histórias sanguinolentas, terríveis, assustadoras. Difícil não ter medo depois de ficar sabendo dessas coisas.
Acontece que medo é um sentimento perigoso. Mais gente com medo significa menos gente na rua - portanto mais crime. Significa mais gente armada, mais gente disposta a agredir os outros (porque comportamente agressivo é típico de gente assustada). Enfim, medo não funciona.
Eu morro de medo do efeito que esse medo pode ter no nosso futuro. Será que estamos criando uma geração de gente que não vai aprender a conviver com quem é diferente dele? Uma geração de gente que não cresceu na rua, que não teve que se virar gerenciando os riscos inerentes à vida? Uma geração de gente que não se garante?
Penso isso enquanto embalo minha ressaca depois de quatro dias de Carnaval em Olinda, a cidade da minha esposa. A festa foi linda. A cidade tomou as ruas. Será que no Brasil assustado que estamos criando vai ter espaço pro Carnaval?
Viver é perigoso mesmo. Viver mata. Mas são os riscos que fazem a vida valer a pena. As ruas estão cheias de perigo - não nego isso. Mas é convivendo com esses perigos, encarando-os de olho no olho, que a gente se torna melhor, que a gente aprende a viver (”viver é conviver”, sempre diz minha tia-avó). Se o Brasil aprender a vencer o medo, tem uma baita oportunidade de servir de exemplo para o mundo de convivência na diversidade. Se não aprender, vai virar um país besta, sem nada de especial.

Denis Russo Burgierman, jornalista, pegou uma bolsa de gelo e colocou no ombro logo depois de entregar este texto. Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

* Texto publicado na Revista Vida Simples da Editora Abril e autorizado pelo autor e pela editora para divulgação neste portal. O blog do jornalista Denis Russo é o http://veja.abril.com.br/blog/denis-russo/

Comentários

avatar Vanuza Costa
Bons tempos aqueles das cadeiras nas calçadas.
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avatar maria giovanna
Otexto ficou otimo.
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