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Pelo fim da gravata
COLUNISTAS - Sustentável é pouco
Escrito por Denis Russo   
Sáb, 16 de Janeiro de 2010 11:34

Acabo de lançar uma campanha cívica. Desengravatemos nossas vidas!

Sem cinto as calças caem, o que é bastante desagradável. Sapatos separam os pés do chão,meias separam os pés dos sapatos. E ainda diminuem o chulé, o que não é pouco. Calça, camisa, cueca ­ entendo perfeitamente bem a razão para usar essas coisas. Mas... para que diabos serve a gravata? Já me disseram que é para esconder os botões da camisa. Arrã. Então tá. Quer dizer que esse pessoal bem arrumado usa gravatas de seda de 300 reais porque morre de vergonha de exibir botões de plástico. Por 300 reais deve dar para fazer botões de rubi.

Calma, calma, elegante leitor. Não estou dizendo aqui que acho que as roupas só valem pela utilidade delas. É claro que eu entendo a importância da moda ­ embora tenha de confessar que nunca me dei muito bem com ela nem ela comigo. Roupas servem para um monte de coisas além de proteger e esconder o corpo ­ elas definem identidade, denotam estados de espírito, passam mensagens. Será que é para isso então que serve a gravata? Para passar uma mensagem?

É claro que sim, e não tenho dúvida sobre qual é a mensagem. Aquele pano pendurado no pescoço grita para quem estiver por perto: “Ei, olha aqui como eu sou importante!” É um código simples, rápido, direto, que todo mundo entende na hora: no meio da multidão, os que estão de gravata são dignos de atenção, de direitos, de mil gentilezas e mesuras. Os de gravata comandam. Os sem gravata obedecem. É assim. Não é à toa que agora tem essa moda de engravatar os seguranças particulares.

Não é engraçado que coisas assim ainda existam em nossa sociedade? Gostamos de achar que tudo em nosso mundo ­ ocidental, urbano, secular ­ é racional, democrático.Mesmo assim, continuamos usando sinais bem pouco sutis de diferenciação social, como naquelas sociedades que gostamos de chamar de “primitivas”. É quase como se fôssemos trabalhar de cocar e contássemos com atenção as penas do sujeito ao lado para saber se ele vale mais ou menos do que nós. Bizarro, enfim.

Por favor, não me entenda mal. Não estou aqui declarando guerra às gravatas, nem aos usuários delas. Uma das utilidades das roupas, que eu não mencionei lá em cima, é deixar as pessoas confortáveis, e tem muita gente que só se sente confortável de gravata. Eu, com essa minha mania de ser do contra, já passei muitas vezes pela sensação de ser o único sem gravata num lugar. Sei o quanto isso pode ser desconfortável, mais até do que o sufocamento do colarinho. Cada um cada um, já dizia minha avó. Que use gravata quem quer.Mas será que ainda faz sentido que algumas empresas continuem exigindo que as pessoas enrolem o pescoço num trapo apertado ao acordar de manhã? Será que ainda faz sentido que nós continuemos medindo o valor das pessoas pela quantidade de penas no cocar?

O jornalista Denis Russo Burgierman recentemente teve que pedir ajuda ao porteiro para dar o nó na gravata. Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

* Texto publicado na Revista Vida Simples da Editora Abril e autorizado pelo autor e pela editora para divulgação neste portal. O blog do jornalista Denis Russo é o http://veja.abril.com.br/blog/denis-russo/

Comentários

avatar Carol Castro
É um absurdo o uso obrigatorio da gravata nas grandes corporações e nos tribunais. Também voto pelo fim da gravata.
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