|
|
|||
|
|
|||
Qualidade de vida, alguém aí é contra? Claro que não. A própria palavra “qualidade” denota algo que é melhor quanto mais houver. Ouve-se de tudo nesses dias de hoje: defender redução do crescimento, do estado, do consumo, da automatização, da alimentação, dos gastos, do trabalho, do ritmo. Mas ninguém defende redução na qualidade de vida.
Por outro lado, está para existir expressão mais escorregadia que essa. “Qualidade de vida” é um conceito mais gasto do que sola de Conga. Papo de publicitário querendo vender para você uma área verde cercada de muros eletrificados, com meninos de rua, fumaça e trânsito te esperando do lado de fora.
Por causa disso, a expressão parece não significar mais nada. “Qualidade de vida” é um conceito tão vago e subjetivo que tornou-se inútil. É uma frase vazia e brega, como “coração partido” ou “flechado pelo cupido”. Esqueça a qualidade de vida.
Mas isso é uma loucura, se você for pensar bem. Afinal, por mais que o conceito seja subjetivo, você sabe muito bem o que ele quer dizer. Pense na sua própria vida. Muito provavelmente você vai conseguir lembrar de épocas em que ela estava boa e outras épocas em que estava piorzinha.
Se você estava envolvido em algum grande projeto, foi bom. Se morreu alguém querido, foi ruim. Se você estava muito próximo de bons amigos, foi bom. Se você perdeu o emprego ou a namorada, foi ruim. Se as pessoas estavam respeitando você e querendo saber o que você pensava, foi bom. Se seu emprego era repetitivo e entediante, foi ruim. Se era criativo e recompensador, foi bom. Você sabe do que estou falando.
Não dá para por um número na qualidade de vida, como dá para por no PIB. Mas, ainda que não tenha número, é sim uma coisa real, concreta.
Há muita pesquisa científica sobre qualidade de vida. Sabe-se com um grau de segurança bastante razoável que tipo de coisa melhora a vida das pessoas e que tipo de coisa piora (os exemplos logo acima são reais). Sabe-se, por exemplo, que consumir não melhora muito a qualidade de vida. “Buscar felicidade no consumo é como urinar nas calças para se aquecer num dia frio de inverno: provê apenas uma breve sensação de calor ”, diz o Manifesto pela Política da Felicidade, da organização de pesquisa independente Demos, da Finlândia.
Hoje, a imensa maioria das pessoas que administram o mundo ignoram flagrantemente essas pesquisas. Nunca leram nada disso. São absolutamente ignorantes no assunto. Mas sabem medir o PIB que é uma beleza. Isso precisa mudar.
* Texto publicado na Revista Vida Simples da Editora Abril e autorizado pelo autor e pela editora para divulgação neste portal. O blog do jornalista Denis Russo é o http://veja.abril.com.br/blog/denis-russo/













Comentários