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Artigo em áudio
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Era noite de sábado quando saí de casa sozinho em direção ao teatro para ver um espetáculo de dança. Teatro lotado. Os respingos de chuva acalmavam meus cabelos mal penteados. Eu já sabia que a companhia trabalhava com portadores de deficiência física. Antes de o espetáculo começar, o grupo apresentou um vídeo-depoimento. Nele, vejo uma moça muito expressiva com seus cabelos loiros encaracolados e olhos esverdeados. Ela me fita com um olhar encantador e diz: “procurei a dança depois que fiquei cega, eu deixo os objetos caírem para que os reconheça pelo som”.
Não! Não é possível essa moça ser cega. Se é assim, como acompanha os outros bailarinos? Acho que deve ter uma coreografia especial só para ela. Aguardo para ver. Cortina aberta. Som, luz, ação: entra em cena a bailarina cega. Pasmem: acompanhada de outros bailarinos. Ainda desconfio e me repergunto: ela é cega mesmo ou é cega parcial? Deixei-me guiar pelo som dos compassos musicais e pela sensação de leveza, força e, acima de tudo, harmonia da bailarina que todos veem, menos ela. Senti uma profusão de sentimentos: alegria, impulso, êxtase, vergonha de mim. Fecham-se as cortinas, e o sonho se acaba.
Após o espetáculo, conheci Jô. Sobrenome: coragem. Ela enxergou dentro dos meus olhos. Conversamos e eu, ainda tímido, balbuciava algumas palavras. Uma amiga em comum me pediu uma carona para ela e Jô. Elas iam em direção à Ribeira, pegar o ônibus que passava às onze e quarenta da noite.
Decidi levá-las para dar uma volta na Praia do Meio. Dentro do carro, Jô falava com tanta ausência de melindres que logo criou-se um clima de empatia entre nós. Ao chegarmos perto da praia, Jô pergunta: estamos na Ladeira do Sol? Sim, Jô, estamos, como você sabe? Eu sinto o ventinho no meu rosto, ai que delícia, como isso me faz bem. Silêncio dentro do carro. Todos “visivelmente” emocionados. Jô quebra o silêncio e afirma com veemência: gente, eu não sou deficiente visual, eu não tenho dificuldade de ver, eu sou cega. Eu não vejo nada, absolutamente nada. Não sei por que ainda existe preconceito em me chamarem de cega. Eu sou cega sim, e pronto!
Há quanto tempo você é cega? Há cinco anos. Como você consegue dançar em sincronia perfeita? Eles fazem o movimento e eu “leio” no corpo deles, “visualizo” o movimento. Como é o seu dia a dia? Normal, como qualquer pessoa, saio sozinha, pego ônibus, vou para aulas de balé, ensaios, trabalho. Quais são seus sonhos? Eu tenho tantos sonhos: cantar, escrever poesias, e o maior deles é fazer um livro. Um livro que conte minha experiência de cega e que sirva para “levantar” o astral dos cegos, porque muitos deles acham que a vida chegou ao fim e vivem depressivos na rotina de casa para o Instituto dos Cegos e de volta para casa. Queria viajar e dar palestras sobre como venci minha deficiência e hoje me aceito como sou: cega! Mas o que você acha que falta aqui em Natal para os cegos? Falta tudo. Desde uma simples sinalização até um cão guia. Aqui, no Brasil, parece que nem tem, só nos Estados Unidos.
Volto em silêncio. Vou lançar um livro contando a experiência de Jô: bailarina cega que me fez abrir o terceiro olho, porque os meus olhos carnais ainda não enxergam como Dorothy fez no mágico de Oz: “Somewhere over the rainbow...”. Por mais que eu me sinta um visionário, sem pudor ou preconceitos, eu ainda sou refém do visual. Quer saber o nome do livro? “Uma cega me guiou”.













Comentários
O texto está perfeito e o Zeca está de parabéns.