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Sobre gatos, ratos e queijos
COLUNISTAS - Perambulando
Escrito por Guto de Castro   
Ter, 22 de Junho de 2010 18:42


Leio nos jornais que o legislativo municipal resolveu esboçar uma reação a superpopulação de felinos na cidade do Natal.  Segundo dados do Centro de Zoonoses a cidade tem hoje 37.455 gatos contra um contingente de aproximadamente 900 mil habitantes, 90 mil ratos e outros 10 mil bichos escrotos. 
Não sei por que tanta preocupação. Pois, os felinos são bons caçadores de ratos e ratos são piores para o sistema do que os gatos. Os ratos são traíras, falsos, egoístas e corruptos. Fazem qualquer coisa para abocanhar o queijo público, que nunca é público. Pois, quem paga a conta do grande banquete no final são os contribuintes. Daí a importância do felino para caçar os ratos nos grandes palácios.
No Egito antigo, os gatos eram venerados e considerados animais sagrados. Bastet, a Deusa da Fertilidade da Felicidade, considerada benfeitora e protetora do homem, era representada na forma de uma mulher com a cabeça de um gato e freqüentemente figurava acompanhada de vários outros gatos em seu entorno.
O amor dos egípcios por esse animal era tão intenso, que havia leis proibindo que os gatos fossem exportados. Qualquer viajante que fosse encontrado traficando um gato era punido com a pena de morte. Quem matasse um gato também era punido com a mesma pena. Em caso de morte natural do animal, o farol baixava decreto obrigando seus donos a usarem trajes de luto. Na Pérsia havia a crença de que quando se maltratava um gato, corria-se o risco de estar maltratando um espírito amigo, criado especialmente para fazer companhia ao homem.
A situação somente foi complicar para os gatos na Idade Média. Acusados de estarem associados aos maus espíritos, os felinos foram enviados para fogueira juntamente com as pessoas acusadas de bruxaria. Pois, toda boa bruxa de antigamente tinha que ter um gato preto de estimação.
Da Inquisição para sessão na Câmara Municipal, os parlamentares e meia dúzias de técnicos sugeriram a castração da espécie, que a médio prazo pode significar também a extinção do felino.  E sem felino, a farra dos ratos estará liberada no banquete oficial. Entre gatos e ratos, prefiro os gatos. E você?

Comentários

avatar Vicente Paulo de Souza
Fazia tempo que não lia um comentário tão irônico sobre a vida pública local. Aliás, acompanho seus comentários no Jornal de Hoje e no portal Eu cuido há algum tempo. Devo confessar que são bons e sempre que posso envio para alguns amigos que tenho no Rio de Janeiro. Um deles, o Rodrigo enviou comentário dizendo que sua crônica lembra muito o texto de Lima Barreto, jornalista que viveu na capital carioca no início do século XX. Parabéns.
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avatar Alexandre Guedes
O grande desafio de um cronista como você é levar para as gerações futuras cenários que o cidadão do Brasil 2050 não gostaria de reencontrar. Daí a importância do seu registro sobre um país, onde lamentavelmente ainda é preciso fazer muito para mudar a dura realidade sem ética vivida na vida pública nacional.
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avatar Simone Matoso
Lí o artigo e achei muito atual com a realidade do Brasil. Historicamente, é o mesmo cenário dos últimos 200 anos. Em síntese, como é dificil mudar os cenários neste país. Principalmente, quando focamos o ítem corrupção. Parabéns Guto pela clareza de suas palavras e ironias que ao longo de sua carreira tem sido uma constante.
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avatar Maria Lúcia Marques
Adorei o texto, não apenas pela crítica mas também para defender os gatos que são animais lindos enecessários na cadeia alimentar. Para mim todo animal é sagrado pois tem vida e a vida é de Deus e só Ele pode tirá-la.
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avatar Geiza Hummer Aguiar
Bom texto, irônico, preciso. São parábolas que ilustram bem a realidade brasileira. Vou indicar aos meus amigos.
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avatar Nilson Morais
Suas palavras funcionam como um grito dos que se revoltam com os políticos e a vida pública local e nacional. O Brasil está longe de ter políticos sérios. Precisamos, então, de cada vez mais jornalistas que façam o papel da oposição neste país.
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