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Volto a Biblioteca Câmara Cascudo depois de anos. E não reconheço o que vejo. As condições são precárias, inaceitáveis para uma casa que tem como objetivo preservar e transmitir conhecimento. É um local que me intriga e me impressiona talvez por jamais entender a tremenda falta de respeito dos gestores com a memória da cidade.
A culpa não é de seus funcionários, dedicados operadores de um acervo cultural sem recurso, sem padrinho, sem proteção. As elites nunca gostaram desse negócio de livros, ensinar o povo a pensar, ler, aprender. Vivem ainda no século XVI, e todos anteriores a ele, quando o conhecimento era compartilhado com poucos.
E porque conservar livros? Talvez para não preservar o retrato cruel de uma época em que os dirigentes não sabem o que fazer com os livros e que são tão cruéis que também não desejam que outros tenham acesso ao conhecimento. Até porque basta lê um pouquinho mais para saber como são medíocres as elites. E aí aparece uma reflexão: Como essa gente consegue dominar o povo? Será que esse povo é mais burro que a elite?
Não vou entrar no mérito. Volto a Biblioteca Câmara Cascudo. Lembro-me que ninguém tinha livro de história ou de arte em casa para fazer uma pesquisa. A única solução era desbravar a tão misteriosa e fascinante biblioteca Câmara Cascudo. Era inacreditável ver que ela existia e não era somente uma lenda.
Duas meninas lutaram para preservar essa história: Zila Mamede e Iolanda Gurgel. Uma paraibana, de Nova Palmeira. A outra norte-rio-grandense, de Mossoró. Ambas, heroínas e dedicadas ao ofício de reestruturação do acervo composto de mais de 100 mil livros. Uma faleceu, nadando pelo Rio Potengi, a outra ainda é bem viva e mora na Rua Seridó, em Petrópolis.
Nascido em berço humilde, chão dos simples, sei das dificuldades do acesso a cultura, ao conhecimento, as universidades. Dói na alma encontrar esse pedaço de memória em ruína. Essas coisas são complicadas para os mais pobres. Daí o meu reclame. Não reivindico inclusão digital, mas o direito ao acesso a uma biblioteca pública, cheia de livros, digna e gratuita.













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