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Ainda que a última árvore da Terra seja transformada em cruz, devemos falar: o feriado santo parece cada vez mais uma grande festa pagã. Do Litoral ao Agreste, do Sertão ao Oeste, as pessoas bebem, comem, fumam, roubam, matam, traem, metem como se os dias da Paixão fossem comuns aos outros períodos do ano. Basta olhar as estatísticas da violência: morreram mais pessoas assassinadas e vítimas de acidentes de trânsito neste feriado do que no Carnaval que passou. Até Judas anda fora de moda.
No tempo de minha infância, em Mossoró, minha vó levava a gente já na quinta-feira da Paixão para adorar o Santíssimo da Igreja Matriz de Santa Luzia. As imagens cobertas por um pano roxo era uma verdadeira catequese para os nossos olhos de meninos. No retorno para casa, refletimos, por que fomos capazes de crucificar e matar um ser tão bom.
Na Sexta-Feira Santa a dor era maior ainda e em respeito à memória de Jesus meu avô virada as imagens de santos para parede, talvez com vergonha de mostrar a própria condição miserável da humanidade. Neste dia, não comíamos carne. Aparecia um peixinho e quando o dinheiro não dava, o arroz e a salada já eram suficientes como alimento para os dias de luto. No sábado da Aleluia, na véspera da Ressurreição, reuníamos em vigília. Os mais antigos contavam histórias sagradas e no domingo bem cedo íamos a igreja celebrar a ressurreição de Cristo.
Sem a transmissão dessa tradição, aos poucos o mundo vai se tornando cada vez menos cristão. Hoje, esperar-se mais pelo Domingo de Páscoa para comer chocolate do que se alimentar no Espírito Santo. Não sei se vale à pena discutir o assunto. Mas, assim como Papai Noel virou o personagem principal na festa da natividade, um coelhinho aparentemente inocente anda roubando a cena na Quaresma com a ilusão dos ovos de chocolates.
Falta respeito ao verdadeiro significado da festa mais sagrada do calendário Cristão. Sem o apoio dos meios de comunicação, a exibição de filmes, reportagens especiais, e séries sobre o Cristianismo, seremos levados a transformar esse importante momento em mais um feriado de farra, consumismo desenfreado e outras aberrações. Sinceramente, por esses dias, tenho medo que até Judas acabe virando a grande vítima da Via Crucis.
Por fim, quero registrar aqui um poema, de um autor desconhecido, enviado pelos professores da escola das minhas filhas, denominado de “Atualizando a Páscoa”. Vamos aos versos: “Ressurgem-se os vinhos/empoeirados da adega/os ovos de chocolate,/E o bacalhau da Noruega./Os coelhos de pelúcia,/como eles são lembrados!/Ah! Ia até me esquecendo,/ Ressurge, também, a lembrança/ do Cristo Ressuscitado.” Que nossa Páscoa, enfim, seja uma reflexão sobre essa conversa e os dias santos.













Comentários
Li o artigo em tela: extraordinário. Outro dia, no Natal, você já falava que a festa da natividade há muito perdeu seu sentido para virar a farra de Papai Noel. Agora, eis que chega o coelhinho com seus ovinhos de páscoa para desviar a atenção do período e levar as pessoas para o consumismo. Aonde iremos?