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Crônica sobre os dias santos
COLUNISTAS - Perambulando
Escrito por Guto de Castro   
Sáb, 23 de Abril de 2011 09:53

 

   

Ainda que a última árvore da Terra seja transformada em cruz, devemos falar: o feriado santo parece cada vez mais uma grande festa pagã. Do Litoral ao Agreste, do Sertão ao Oeste, as pessoas bebem, comem, fumam, roubam, matam, traem, metem como se os dias da Paixão fossem comuns aos outros períodos do ano. Basta olhar as estatísticas da violência: morreram mais pessoas assassinadas e vítimas de acidentes de trânsito neste feriado do que no Carnaval que passou. Até Judas anda fora de moda.
No tempo de minha infância, em Mossoró, minha vó levava a gente já na quinta-feira da Paixão para adorar o Santíssimo da Igreja Matriz de Santa Luzia. As imagens cobertas por um pano roxo era uma verdadeira catequese para os nossos olhos de meninos.  No retorno para casa, refletimos, por que fomos capazes de crucificar e matar um ser tão bom.
Na Sexta-Feira Santa a dor era maior ainda e em respeito à memória de Jesus meu avô virada as imagens de santos para parede, talvez com vergonha de mostrar a própria condição miserável da humanidade. Neste dia, não comíamos carne. Aparecia um peixinho e quando o dinheiro não dava, o arroz e a salada já eram suficientes como alimento para os dias de luto. No sábado da Aleluia, na véspera da Ressurreição, reuníamos em vigília.  Os mais antigos contavam histórias sagradas e no domingo bem cedo íamos a igreja celebrar a ressurreição de Cristo.
Sem a transmissão dessa tradição, aos poucos o mundo vai se tornando cada vez menos cristão. Hoje, esperar-se mais pelo Domingo de Páscoa para comer chocolate do que se alimentar no Espírito Santo. Não sei se vale à pena discutir o assunto. Mas, assim como Papai Noel virou o personagem principal na festa da natividade, um coelhinho aparentemente inocente anda roubando a cena na Quaresma com a ilusão dos ovos de chocolates.
Falta respeito ao verdadeiro significado da festa mais sagrada do calendário Cristão. Sem o apoio dos meios de comunicação, a exibição de filmes, reportagens especiais, e séries sobre o Cristianismo, seremos levados a transformar esse importante momento em mais um feriado de farra, consumismo desenfreado e outras aberrações. Sinceramente, por esses dias, tenho medo que até Judas acabe virando a grande vítima da Via Crucis.
Por fim, quero registrar aqui um poema, de um autor desconhecido, enviado pelos professores da escola das minhas filhas, denominado de “Atualizando a Páscoa”. Vamos aos versos:  “Ressurgem-se os vinhos/empoeirados da adega/os ovos de chocolate,/E o bacalhau da Noruega./Os coelhos de pelúcia,/como eles são lembrados!/Ah! Ia até me esquecendo,/ Ressurge, também, a lembrança/ do Cristo Ressuscitado.”  Que nossa Páscoa, enfim, seja uma reflexão sobre essa conversa e os dias santos.

 

Comentários

avatar Juliana Mesquita
Perfeito. Texto claro sobre o momento vivido no Brasil e no mundo. Usamos aqui no retiro da igreja sua reflexão sobre o tema. Parabéns!
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avatar Dorinha Costa
Oi Guto,
Li o artigo em tela: extraordinário. Outro dia, no Natal, você já falava que a festa da natividade há muito perdeu seu sentido para virar a farra de Papai Noel. Agora, eis que chega o coelhinho com seus ovinhos de páscoa para desviar a atenção do período e levar as pessoas para o consumismo. Aonde iremos?
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avatar Paulo Andrade
Dez...simplesmente dez.
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avatar Janaina Medeiros
Muito bem escrito seu artigo. Pena que poucos lêem o que estão escrevendo de bom por aí. É lamentável, mas não deveria ser assim. Continue insistindo, um dia eles aprenderão, ou melhor, irão ler.
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avatar João Damasceno
Somos pequenos demais para entender o divino. Que Deus continue perdoando nossas faltas. Não sei Guto até quando. Mas, de qualquer maneira, fica o registro de parabéns pela suas palavras, irônicas, é verdade, mas que são como parábolas que para um bom entendedor basta. Parabéns e que Deus continue abençoando com graças o se exercício literário.
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