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Certa vez eu assiti um documentário no Canal Futura que mostrava a história de um povo, em algum lugar da África, que praticava uma das formas mais ancestrais de caça. Perseguição. Os caçadores perseguiam a vítima até a exaustão dela. O caçador se munia de comida desidratada, um odre [feito da pele de outro animal] com água e uma lança.
A vítima [no documentário] era um antílope. O homem cercou o bando, que fugiu sem nenhuma dificuldade. Aparentemente a caça estava perdida. O objetivo [no caso conseguir comida para alimentar a sua família] fora perdido. A chance se lhe escapou pelas mãos pela precariedade de suas ferramentas.
Sim, as ferramentas eram as mais simples. Mas a força da empreitada não estava nos utensílios, mas do conhecimento de mundo apreendido por quem portava aquelas armas. Então o homem se concentrou num grupo de animais e começou a perseguição.
Os animais avançaram, tomando uma dianteira de dezenas de quilômetros em relação ao caçador. Conforme os animais percebiam que o caçador permanecia em sua cola o bando se dispersava. Este, por sua vez, continuou sua jornada numa corrida a passos curtos, mas incessante. Até que um animal decide tomar rumo individual, ao que o caçador percebe e se concentra.
Durante dias [dias!] o homem seguiu correndo, “vendo” sua presa pelos sinais na selva. Evidentemente suas provisões vão sendo consumidas, mesmo que cautelosamente. Até que sua provisão termina quase que no mesmo instante em que o animal, exausto de tanto tentar fugir, cai por terra sem mais poder nem caminhar.
Horas mais tarde o caçador se encontra com sua presa, já completamente à mercê do golpe de misericórdia. O ato é efetuado como numa cerimônia [para quem viu o filme Avatar é da MESMA forma], com o homem pedindo perdão ao animal por ter que executá-lo, mas que ele vai poder, com seu corpo, manter vivos os corpos de sua família.
O homem encontra-se a dezenas de quilômetros de sua aldeia. E vai ter que retornar levando a carga. Mas está sem água, e numa região de savana. Árvores esparsas e nenhum rio ou fonte de água visível. Aí entra o mais extraordinário.
Esse homem [sedento] sabe que na região existe uma árvore em cujo interior há uma substância adocicada. Então sai a procura da árvore e em uma hora a encontra [está numa savana, oras]. A sede enrijece sua musculatura, mas ele segue implacável perfurando a casca da árvore. Faz um pequeno buraco e através dele extrai a substância, a qual vai mascando e formando uma pequena bola [como um brigadeiro de gosma e cuspe]. Conforme masca, a sede aumenta.
Mas a guloseima não é para seu consumo [pois que a sede, que já é de esturricar, seria exponenciada], mas para ele dar a um macaco, de uma única espécie que gosta de comer o tal brigadeiro. Então ele encaixa a bola de doce de volta no buraco que havia feito na árvore, para que o tal macaco venha pegar. Se afasta da árvore e espera algum macaco se aproximar.
Já pensou na sede desse homem? Então umas duas horas depois um macaco curioso se aproxima, atraído pelo cheiro irresistível da iguaria. Observa desconfiado o ambiente, para num movimento rápido meter a mão na cumbuca e pegar o doce que o esperava de bobeira. É aí que o caçador se aproxima calmamente do macaco, desesperado por ter sido descoberto. Mas o macaco não larga a guloseima, fazendo com que sua mão [???] fique presa no buraco. Daí o caçador só [só???] tem o trabalho de pegar o macaco.
O homem amarra o pequeno animal alvoroçado e, para sua surpresa, começa a dar a ele de comer a bola de doce, para que o macaco fique com sede também [também é um mimo com o macaco, porque o cidadão está com tanta sede que não deve mais pensar em mais nada]. O caçador sabe que o macaco sabe onde buscar água. Então deixa o bicho amarrado e espera [de novo] bater a sede no macaco. Mais umas duas horas depois e “dá linha” para que o macaco procure água, o que consegue uns trinta minutos depois.
O macaco começa a cavar o chão desesperadamente, e o homem percebe que ali tem água. Pronto, agora é ele fazer uma pá improvisada e começar a cavar [!!!] até atingir a singela profundidade de um metro e meio. Ao chegar nesse ponto ele encontra, finalmente, a água salobra com a qual vai encher o seu odre e poder fazer todo o vasto caminho de volta, com a carga no lombo.
Portanto, quando você se arvorar a empreender uma jornada em busca de seu objetivo [que é exatamente o meu caso atual], pense na dificuldade que uma pessoa como essa enfrenta. Tenho absoluta certeza de que suas dificuldades não se emparelham com as dele, que em nenhum momento deu qualquer sinal de esmorecimento. Se concentre no seu objetivo, mas antes procure conhecer quem você é. A sede existe, mas também a água existe.













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