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O momento
COLUNISTAS - Na ponta da bota
Escrito por Buca Dantas   
Seg, 28 de Setembro de 2009 07:27

 

Neste exato momento a chuva cai sobre o telhado de alguma casa protegida. Gente feliz conversa sob luzes acesas. Sorrisos e gestos de afeto preenchem o ambiente. Neste exato momento. Enquanto o tempo corre, agora mesmo, alguma das mais de seis bilhões de pessoas está chorando. Está segurando nos braços outra pessoa morta. Alguém tão importante que sem a qual nenhum instante outro terá o menor sentido e nem o mérito de ser vivido.

Uma mão está sendo estendida para outra no momento mesmo em que essas palavras ecoam em nosso pensamento. Um tiro está sendo disparado, e mais outro e mais outro. Alguém está fazendo a colheita de algum alimento para sua família, mercado ou aldeia. Um beijo está sendo compartilhado por casais que se amam ardente, exclusiva e profundamente. Uma mentira maldosa e devassadora está sendo proferida.

Uma mãe está parindo sua primeira filha, outra está amamentando o filho de outra mulher, e outra mulher está enterrando seu filho mais velho. Uma amante está se esvaindo num gozo frenético e inesquecível, uma melodia está fluindo por um instrumento divinizado, um olhar está sendo lançado e correspondido por um casal de adolescentes que se encontraram ao acaso numa praça qualquer. O sol está brilhando sobre algum arvoredo, a neve está soterrando algum animal mortalmente, a relva está bailando ao sabor de um vento morno.

O momento é único e implacável com a existência. E em algum lugar, sem nenhuma esperança de salvação, alguém está sendo submetido a mais dolorosa tortura: numa fornalha de carvão, na colheita de cana-de-açúcar, numa orgia sexual, escavando uma mina, costurando roupas que nunca vai usar e fabricando sapatos com os pés descalços. Uma faca está rasgando as vísceras de uma vítima fatal. Alguém está, finalmente, retornando sã e salva para casa depois de uma caminhada por uma estrada erma e escura.

Neste exato momento [e exatamente neste momento] alguém está confessando para outra pessoa que a ama, uma outra está cozinhando um arroz quente, outra está correndo para pegar um carro, outra está piscando os olhos, outra abaixando-se para apanhar alguma coisa caída aos pés. Como em câmera lenta uma mão sai da água, outra entra num bolso, solta o lápis, bate à porta, estala os dedos, limpa o sangue, indica o horizonte, desliga uma lâmpada, pousa inerte sobre um peito, espalma na outra, solta uma pipa, aciona uma serra elétrica que vai destruir uma árvore com quase mil anos de mundo.

Deixe o momento invadir a sua vida. Por todo amor que você tem, deixe o momento invadir sua vida. Derrame a lágrima que derramar, solte o sorriso mais feliz, avance um passo na direção que seu sentimento apontar, veja o que seus olhos ainda não viu, seja mais delicado com quem tanto quer, despreze o que não merece esse exclusivo [e que nunca mais retornará] momento. Diga a palavra, escreva a mensagem, aponte o caminho, firme o passo, dirija o olhar e amplie o horizonte para nunca mais ser como ainda a pouco, mas alguém cada vez melhor e que valha a pena o imensurável esforço de evolução que a vida fez até agora. Pegue o momento em suas mãos, pois esse exato momento é tudo o que você tem.

Comentários

avatar Shel
Obrigada.
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avatar Buca
não por isso, Shel...eu que agradeço sua leitura.
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