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Daniela quer ir à festa
COLUNISTAS - Na ponta da bota
Escrito por Buca Dantas   
Ter, 14 de Julho de 2009 19:23
Artigo em áudio

imgHoje é sexta-feira. E Daniela quer ir à festa. Parada bacana, com gente jovem como ela. Vai ser na casa de um amigo que conheceu recentemente. Carlinhos. Gente fina. Mora na Vila de Ponta Negra. O convite foi feito por telefone, e-mail e... ao pé-de-ouvido. Carlinhos insistiu que Daniela estivesse lá.

“Você pode chegar na hora que quiser, desde que seja depois das cinco da tarde, quando a festa já deve ter uma galera”, disse ele na saída da escola. Ela ficou muito animada. Não vai muito a baladas. Até que gosta, mas sempre desiste na última hora porque perde a coragem de enfrentar a ida e volta. Não tem carro e “andar de ônibus é osso!”

Daniela mora no outro lado da cidade, em Redinha Velha, com a mãe e uma tia solteirona. Tem muitas possibilidades de se divertir em seu próprio bairro. Tem até praia, de graça (ainda), mas acaba fazendo a opção de ficar em casa. Não que prefira, mas só em pensar em entrar no coletivo...

“Não tem como, mãe. Essa cidade foi feita só pra quem anda de carro”, Dona Margarida, repreende “deixa de ser preguiçosa, minha filha. Que é que tem as calçadas serem altas e baixas?”. Isso, dona Margarida! Já pensou? Não sair de casa por causa das calçadas e buracos. Essa é boa. E em dia de chuva é que ela nem se atreve a dar umas voltas pela rua, “e nem pense que vou com você. Tenho muito o que fazer, trate de ir sozinha”.

O vestido está sobre a cama. Ela já terminou o banho. Daniela está de frente para o espelho, penteando o cabelo e decidindo se vai para a festa. Dia de sol. O ponto de ônibus fica a uns cinquenta metros de sua porta. Daniela finalmente pensa decidida que “não importa se as calçadas são altas, que eu vá sozinha, que eu peça para as pessoas sempre um favor, que muita gente não me respeite”. Botou o vestido, passou o batom mais vermelho que tinha, um perfume maravilhoso, pegou sua cadeira de rodas e encarou a cidade

Comentários

avatar Filipe
Adorei seu texto. No início nem imaginava que era cadeirante. A boa notícia é que a cidade parece estar acordando para isso, né? Chegaram novos ônibus adaptados e, apesar de a frota ainda ser muito pequena, pelo menos os empresários estão começando a atender essa necessidade tão latente. Que venham mais ônibus!!!
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avatar Raimundo Nonato A. Filho
Achei o texto de rara sensibilidade para tratar de um tema como a dificuldade que os cadeirantes, assim como outras pessoas portadoras de necessidades especias, enfrentam em seu dia-a-dia para um ato tão simples como o de ir a uma festa. Lembrei-me de um de meus pacientes (sou médico veterinário) que é "cão-guia" e de sua dona, uma moça muito agitada, que trabalha, faz faculdade, é atleta para-olimpica e muito feliz com seu campanheiro canino. Um belo exemplo a ser seguido. Parabéns e obrigado pelo texto tão bonito.
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