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Porquê quero me livrar dos óculos
COLUNISTAS - Na ponta da bota
Escrito por Buca Dantas   
Qui, 28 de Maio de 2009 15:35
Artigo em áudio

Eu quero me livrar dos óculos. Sempre quis. Uso essas muletas visuais há tanto tempo que nas minhas memórias mais remotas estão lá os quatro-olhos. Comecei a usar óculos aos seis anos de idade (lá se vão mais vinte e oito). A necessidade surgiu na sala de aula, com a minha carteira chegando cada vez mais perto do quadro negro, que eu ia vendo cada vez mais negro.

Os óculos sempre foram uma barreira no que quer que eu fizesse. O cineasta alemão Win Wenders diz que os óculos definiu sua profissão, por causa do formato a que sempre foi obrigado enxergar o mundo: dentro de uma tela. No meu caso, os óculos definiram até meu apelido, Buca, que evoluiu de Buga, que evoluiu de buggy, que dava nome a um carro falante, personagem de desenho animado ridículo cujos olhos eram os faróis, enormes e sempre esbugalhados.

Lembro-me da primeira armação, chamada casco-de-tartaruga. Não sei o motivo do nome, já que o material não era feito dos costados do animal. Essa durou uns dois anos. Creio que um recorde de existência. E é um paradoxo, ser justamente o meu primeiro par de óculos os de vida mais prolongada. É que, inexplicavelmente, meus óculos sempre quebravam.

Esse quebra-quebra era um transtorno geral. Pra mim, na cara, visto que não conseguia ter uma continuidade de percepção visual (da mudança que acontecia com os amigos, a família e as ruas da cidade), já que passava longos períodos entre a lente quebrada e a reserva. Para meu pai, no bolso, pois que com dez filhos minhas lentes não estavam nas prioridades financeiras.

Tem história de todo tipo. Como eu era louco por futebol (e deixei de ser por causa dos óculos), certa vez embrulhei meus óculos na farda, coloquei dentro da mochila, ajeitei-a num cantinho da trave e fui jogar. Não havia mais ninguém exceto os garotos dentro do campo. Um amigo meu (ex-amigo depois dessa história) veio assistir ao treino e, como não queria se sujar antes da aula, escolheu minha mochila como cadeira. Já viu o resultado.

Outra, mais absurda ainda, foi quando tinha quinze anos e assistia um filme na tv. Do nada! Nem ao menos mudança de temperatura ambiente! Meus óculos estalam na frente de todo mundo. Eu vivia num estado tal de ansiedade que fiquei feito um celerado, no meio da sala, tentando dizer que: “foi sem querer, foi sem querer” enquanto meus irmãos rolavam no chão, de tanto rirem.

Uma última (Dentre as que chegam a mais de uma centena, com certeza!) deu-se no dia no qual, mais uma vez contrariando as profecias de minha mãe (é que o que ela dizia, sobre eu quebrar meus óculos, sempre acontecia) fui assistir uma partida de futebol de salão. Nada de mais. Só que ao final de tudo (e eu já satisfeito por estar saindo ileso da aluna de Nostradamus) um sujeito gritou, do outro lado (!!!) do ginásio: “lá vai feijão”. E eis que um inofensivo caroço de feijão atravessa o ginásio e repousa no aconchego de minha lente esquerda.

Depois foi uma profusão de cacos de vidro. Parece mágica! Essa faceta (o de quebrador de óculos) está tão imbricada em minha personalidade que recentemente, não mais que uma semana atrás, ao reencontrar uma amiga (que não via faz uns quinze anos), ela perguntou-me se eu continuava a quebrar óculos. Eu disse, meio sem jeito, que não (apesar de portar óculos quebrados na hora). Hoje compreendo melhor o motivo de eu me ver livre dos óculos. É que eles sempre quiseram se ver livres de mim!

 

Comentários

avatar Mari
E como é estar livre deles, eim Buca?
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avatar Manoel
Ótimo texto, super divertido!
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avatar Roseane Pereira
É realmente um alívio se livrar dos óculos. Digo pela minha experiência. Há 13 anos vivo sem óculos de grau, após fazer uma cirurgia. Não tenho a menor saudade deles. Que bom você ter se livrado do seu!!!
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