|
|
|||
|
|
|||
Sábado, chão enlameado, barracos enfileirados, são 8 horas de uma manhã chuvosa e na entrada da “comunidade” já se encontram alguns homens barbados, mal vestidos e “tomando uma”, pessoas apressadas vão passando e uma fila enorme vai se formando.
Logo mais, um grupo de pessoas da sociedade que “de vez em quando aparece por aqui trazendo esmolas” na fala da líder comunitária, estará ali distribuindo donativos.
Enquanto os “Caridosos” não chegam e a fila aumenta, resolvo fazer uma excursão pelas ruelas enviesadas, sem começo nem fim, formadas por barracos feitos de lona, pedaço de papelão, plástico, algumas paredes de taipa.
Olhando mais atentamente, percebe-se a mobília reaproveitada e mal conservada, os minúsculos ambientes onde moram famílias inteiras, o olhar perdido da maioria silenciosa que só nos olha, como seres estranhos e invasores de seus dias intitulados por eles de “normais”.
Na porta de um dos barracos, uma menina que não tinha mais que 16 anos segurava um bebê de meses ao colo. Não resisti e “puxei um papo”:
- Bom dia!
Desconfiada, olhando mais para o vazio do que pra mim, respondeu:
- Bom dia!
- Criança bonita, é seu?
- É...
- Qual a idade dele?
- 11 meses.
- E a sua?
- 16
- Como você é nova, estuda?
- Não, eu tenho que cuidar dele.
- Trabalha?
- Também não senhora.
- Você quer trabalhar?
- Eu não, os trabalhos que aparecem deixa a gente presa a semana toda pra ganhar um salário mínimo que não dá pra nada.
- E vocês sobrevivem do que?
- Minha mãe me ajuda com a bolsa família.
- E sua mãe mora aonde?
- Nesse barraco aí da frente.
- E por que você não deixa seu filho com ela pra estudar? Aqui pertinho tem Escola pra você e até creche pra ele...
- Não, não dá certo não. Ele é muito danado só dá certo comigo mesmo.
- E com uma bolsa família da sua mãe vai dar para vocês todos sobreviverem?
- Dá! eu já estou inscrita no programa de Lula, a minha bolsa logo-logo vai sair.
A fila lá fora continuava aumentando, a líder comunitária continuava resmungando de que políticos e o povo da sociedade só se aproveita da miséria, a menina continuava na porta do barraco aguardando sua bolsa ser aprovada, a mãe da garota tava dormindo, afinal sua bolsa já tava garantida.
Não tiro o mérito de políticas sociais que amenizam necessidades básicas de pessoas que não dispõe do mínimo necessário para sobreviver. O Bolsa Família instituído pelo Governo Federal em outubro de 2003 tem seus méritos é verdade, mas, certamente, o cumprimento das condicionantes não estão sendo cumpridos e na proporcionalidade que as bolsas se multiplicam, as filas de contribuintes que pagam mais essa conta também pode se multiplicar.
Não sou contra partilhar benefícios e diminuir a distancia entre brasileiros pobres e ricos. Não sou contra políticas públicas que tragam alento às classes menos favorecidas, principalmente, se condicionadas a sua inserção a rede pública de saúde, educação, moradia... Sou contra, no entanto, a políticas eleitoreiras, sem medição de conseqüências e de incentivo ao ócio.
Aquela menina muito em breve, terá sua bolsa e um novo filho. A multiplicação da miséria se percebe a olho nu, a continuidade da fila para receber donativos também, empregados ganhando um salário mínimo é algo em extinção, o circo das campanhas políticas, ao menos ele, se aperfeiçoa.













Comentários