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Artigo em áudio
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De vez em quando me surpreendo ao pensar que o mundo se encontra transformado em uma grande indústria, cuja linha de produção em grande escala terá como produto final milhares de “Diabinhos”. Sim, Diabinho com “D” maiúsculo como devem ser escrito todos os nomes.
Noite de sábado, uma família prepara-se pra dormir. Portões e portas fechados. Cerca elétrica ligada, lâmpadas acesas e de repente, uma criança estranha, com seus mais ou menos 12 anos. Mal vestida, suja, de olhar fixo, escondido embaixo da mesa da sala principal.
Assustado por ser descoberto tenta levantar, com duas bolsas nas mãos, não reage sequer com o olhar que continua fixo em lugar nenhum. Reboliço geral! Descobre-se que aquela criança, magricela, cabelos pretos encaracolados, levantou o último fio da cerca e adentrou sorrateiramente deslizando entre o fio e o muro da casa.
Pra quem telefonar? Que providência tomar? Telefona-se para o 190, ocupado o tempo inteiro. Para a polícia comunitária, celular fora de área. Delegacia do bairro, só funciona até a sexta-feira. Para o SOS Criança, a gasolina do carro só dá pra chegar ao bairro, não sendo suficiente para a diligencia completa. Depois de muitas ligações, consegue-se que uma viatura da PM venha até o local.
“Tu de novo Diabinho?” indaga um dos policiais que continua: “Vocês sabem que não temos o que fazer. Só hoje é a segunda vez que prendemos Diabinho. Ele age com um comparsa mais velho que fica do outro lado do muro recebendo os produtos do roubo. Na maioria das vezes ele é preso, mas como é menor logo está solto, pois não pode ficar na Delegacia e foge de tudo que é lugar, não teme castigos”.
O outro PM até então calado, segurando “Diabinho” complementa: “Ele mora numa favela aqui próxima. A mãe é drogada e tem outros irmãos menores que ele, além de um de 14 anos que até já matou...”
Olhamos para aquela criança, mais vítima que algoz, trazendo em um dos braços a figura de Satanás tatuada, origem do apelido. Assustado não diria, mas de olhar perdido, sem nenhuma perspectiva. Sem chances, diria. Sem parâmetro familiar, religioso ou social. Sem nome, nem sobrenome. Sem saber o que é escola, um lar. Sem saber dizer o que difere morrer ou matar.
Pra onde realmente encaminhá-lo? Que equipamento o Estado dispõe para receber crianças, jovens e adolescentes em situação de risco e que possibilite a essas pessoas condições de estudo, profissionalização e sua inserção em um mercado de trabalho cada vez mais competitivo?
O que fazer com famílias e mais famílias de “Diabinhos” que se encontram marginalizadas, sem acesso à saúde, ao trabalho, à educação e desistiram de lutar? Quando haverá a tão sonhada REVOLUÇÃO SOCIAL, onde a linha de produção seja inclusiva e o produto “DEUSINHOS”?












Comentários
Parabéns pelo texto.