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Políticos, personagens incomuns?
COLUNISTAS - Desafios Urbanos
Escrito por Francineide Damasceno   
Qua, 24 de Junho de 2009 17:52

“Partido político é um agrupamento de cidadãos para defesa abstrata de princípios e elevação concreta de alguns cidadãos”, escreveu Carlos Drumond de Andrade. Profecia ou realidade de uma época que hoje se repete?

Repete-se em parte, pois antes pelo que se percebe o Partido era o agrupamento e a elevação era de alguns cidadãos. A coisa se aperfeiçoou caro Drumond, atualmente, parece-nos que quase todos os partidos para não radicalizar, tornaram-se esse grupamento e eleva-se a todos os cidadãos “não comuns”, eleitos pelo voto dos comuns e às vezes nem eleito, sustentados pela miséria dos comuns e acobertados pelas Leis com as quais se autoblindaram.

Assistimos tontos e empalidecidos quando não a defesa incondicional dos nossos “representantes não-comuns”, um silencio ensurdecedor em nossas mais altas e “incomuns” “cortes”, em relação a tantos escândalos envolvendo instituições e personagens referenciadas na hipocrisia de nossa história.

E quais serão as referencias dessas novas gerações de comuns que crescem, e “se entende de gente” como dizia os avós de algumas décadas, sem ver futuro na escola pública, sem o atendimento básico nas unidades de saúde, sem o direito de ir e vir porcausa da violência, e ainda assiste, diuturnamente, a elevação concreta desses incomuns e o desmoronamento de instituições criadas e sonhadas para trabalhar em prol da coletividade?

Contarei aqui, uma historinha que escutei há alguns anos, quando desenvolvemos um trabalho social no Lixão de Natal, um local insalubre onde bichos e gente corriam em busca dos carros que traziam os restos dos supermercado, por vezes com seus prazos de validade vencidos e onde famílias inteiras moravam e sobreviviam.

Conversando com um senhor de seus 72 anos, morador de um daqueles barracos de plástico, perguntei-lhe: Seu Antonio o que o senhor fazia antes de vir pra cá? E, aquele senhor de olhar triste e perdido no horizonte, respondeu: “Quando eu era vivo, fui motorista. Vim do interior em busca de dias melhores, mas aqui não consegui pagar aluguel, nem arranjei emprego, e aqui estou”.

O filho de seu Antonio, de 12 anos, vestido com a roupa tirada do lixo, comendo a comida retirada do lixo, tomando remédio, sentando nos restos de banco, tudo retirado do lixo, também estava lá e ao ser indagado do que faria no futuro, nos respondeu: “Não sei. Meu pai foi honesto e olha aí o que ele ganhou. Mora num barraco, não tem direito nem a um banho. Por isso, subo a duna, desço no Satélite (bairro próximo), roubo a primeira TV, vendo por 20 paus e compro duas pedras de crack”.

E, aí, hipocritamente diremos: nada justifica a desonestidade. Nada justifica a falta de decência, roubar, matar, se drogar, vender drogas. Nada mesmo, longe de eu querer fazer apologia ao crime. As referencias que permearam a vida do filho de seu Antonio deve-se a ausência de políticas públicas sérias, planejadas e reais e essa
ausência deve-se a outros criminosos ditos incomuns.

Comentários

avatar Rogerio
Vc está cada vez mais se superando na escrita! Merece o diploma que tem!
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avatar Fran
Que diploma???? O rasgaram a semana passada....
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avatar Marcelo Gurgel
Seu texto é claro, objetivo e real com o Brasil que vivemos. Parabéns Francineide e continue acreditando que seu diploma vale mais do que muitos juristas pensam.
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avatar Fran Damasceno
Obrigada, Marcelo! É verdade, meu diploma valerá enquanto eu puder me indignar! Enquanto eu não conseguir ficar indiferente e não deixar de lutar em prol das minorias, seja através de um projeto social, ambiental..., seja através de um texto!
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