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Este ano, entre outros, realizei mais um sonho e peço licença aos meus raros leitores para hoje escrever sobre ele, pois sonhos realizados são recortes que devem ser registrados, não é mesmo?
Tive uma infância humilde, mas muito prazerosa e dela sinto saudades e sempre quis fazer uma homenagem aos meus pais que com humildade e muita dignidade nos deu o que lhes foi possível tanto materialmente quanto em relação à efetividade.
No dia que meu pai estava completando 70 anos entreguei a ele e a toda minha família “Recortes”, um livreto no qual juntei retalhos, pedaços de histórias, histórias de nossas vidas.
Os registros rabiscados certamente têm suas lacunas, mas cada lauda, cada linha trouxe a verdade de cada vivencia, de cada pergunta que fiz e da forma de como interpretei as respostas que, por vezes, vêm de lembranças antigas e, dessa forma, iminentes às falhas naturais à memória.
Registrei, sobretudo, a história dos raros retratos em preto e branco, a saudade como reflexo do que lembramos e, por isso, as lembranças ali registradas são boas, felizes e, mesmo àquelas que nos deixaram um vazio, uma vontade, um desejo, estavam registradas em algum lugar da mente e agora socializada nesse escrito, assim continuaremos sempre revivendo, sonhando.
Rachel de Queiroz falou que “a gente nasce e morre só. E talvez por isso mesmo é que se precisa tanto de viver acompanhado ...'', ratificando seu pensamento, é uma necessidade vital acompanharmo-nos de pessoas, de amores e de lembranças. Nossa trajetória é construída assim, dia após dia, num ajuntamento de recortes que dependendo de como os tratamos, podem transformar-se em obra de arte, na nossa companhia de amanhã.
Estou feliz por ter conseguido entregar “Recortes” para meu pai, minha mãe, para cada um dos meus irmãos, meu tio Antônio, meus primos... Estou feliz por que todos estavam lá, presentes, felizes com o reencontro, fazendo de cada sorriso um louvor a Deus pela conquista.
Os antigos retratos da parede da casa de vovó, depois guardados como relíquias, não ficaram para sempre abstratos, estavam lá no livro, nas paredes, na curiosidade de cada pessoa ali presente, na saudade que trouxe a cada olhar, pois segundo Quintana eles nunca se desumanizam de todo e enganam a solidão dos caminhos sem lua.













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